25 março 2010

Pensei nisso quando deixei a cidade onde moramos para uma temporada de dez dias naquela província vizinha. Não foi exatamente quando cruzava a ponte sobre o rio que separa os territórios, o que nasci do que escolhi pra viver, mas alguns dias depois. Andava pisando em pedras escorregadias, chovia, acabara de sair de uma sessão de cinema na qual exibiram um thriller policial nada empolgante, ambientado em um território de fronteira. Foi quando me dei conta de que essa, a da fronteira, seria a melhor metáfora de nós dois. Talvez tenha sido o isolamento que me forcei a experimentar; os dias e noites sem falar com ninguém além do necessário para o trabalho que me sugou aqueles dias – e não falar com alguém, aqui onde estou, é desafio dos mais ingratos. Vi outros filmes. Em um deles, um caminhoneiro cruzava solitário fronteiras imaginárias, em nome de um serviço que nem ele sabia bem a que se propunha, mas para o qual lhe pagavam muito bem. Nesse enredo entediante ele se permitia, ao contrário da trama que desenhei pra mim, encontros fortuitos com andarilhos, putas de beira de estrada e outros habitantes fluidos das margens das rodovias. Nesses dias, você me surgiu vez ou outra na tela do computador, na do telefone celular, mas sobrava pouco espaço para que eu imaginasse seu rosto e seu corpo. Eram apenas palavras, e eu evitei estimular essa presença tecnologicamente possível, essa união virtual, como forma de descobrir o quanto ainda era capaz de pensar em você se não fosse obrigado a te ver todos os dias. Ainda não tenho uma resposta. Do que vivi, uma lembrança ainda me acompanha; era um pensamento recorrente naqueles dias. Você na janela do primeiro andar, seu cabelo negro agitado pelo vento, seus olhos pousados na calmaria da rua; e eu do outro lado, atrás da grade cinza, do muro branco, na varanda mal iluminada com o chão decorado por flores de cimento plantadas de modo irregular. Quando você saiu dali, pensei que nunca voltaria a te ver. Mas logo depois você cruzou a linha, atravessou a rua e veio bater aqui. Imagino a porta do guarda-roupa aberta, você escolhendo sua melhor capa de chuva – porque naquele dia também chovia e porque descobri depois que capas de chuva eram uma obsessão colecionável – e seu corpo escorrendo lentamente pelas escadas circulares do edifício.

5 comentários:

dansesurlamerde disse...

capas de chuva são boas proteções coloridas.
teu texto também é colorido, mesmo sob a chuva.

beijo.

'shooshoo' disse...

foi bater aí pra pedir uma xícara de açúcar (e de afeto!). vizinhança. coisa de gente de ultrapassa fronteira.

Thiara Pagani disse...

Blog muito bom!
A chuva passa e o que sobra são as capas de chuva.

Mariana disse...

olha, não conhecia seu blog.
gostei :)

Ana. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.