16 junho 2008

Ontem, em Ouro Preto, Rodrigo de Oliveira escrevia dedicatórias nas primeiras páginas do livro de artigos sobre o filme Serras da Desordem, sentadinho ao lado do diretor Andrea Tonacci, em uma tarde de lançamento. Exatos 6 anos após o primeiro copo (de plástico) meio cheio (ou meio vazio) de vinho que brindamos, no quinto dia de Ufes, em uma calourada inesquecível (tive noção dessa data redonda justamente agora e quase choro em uma videolocadora com 5 computadores e internet perto da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar). Naquele tempo, 1) ele andava com o Bloco do Eu Sozinho e fitas VHS cheias de Woody Allen debaixo do braço; 2) ganhou nota 10, acompanhada de um "já é um crítico" escrito pela professora no pé da página, em uma resenha de "Amnésia" para a disciplina de Língua Portuguesa; 3) ainda não mantinha a famosa Casa de Loucos; e 4) participava de um projeto frustrado de um site (Mösha) comigo, Rodrigo Melo e José Azevedo, onde assinava seus textos com tiradinhas divertidas do tipo "é estudante de jornalismo e adora os filmes da sessão da tarde". O que ele faz agora (andar por aí acompanhado de críticos renomados, historiadores do cinema brasileiro e diretores promissores) eu não preciso contar, mas de vez em quando separa um tempo para os amigos, entre um longa e outro, em festivais de cinema pelo país, para um café corrido ou uma cerveja com samba.

10 junho 2008

chegou a hora de encarar o que eu escrevia com 17 anos de idade. uma agenda de couro marrom onde anotei todos os meus gastos (das passagens de ônibus às cervejas, ainda parcas) em 2000. nessa época eu morava em belo horizonte, fazia terceiro ano à tarde e tinha o bom costume de andar do colégio até a casa de um tio, onde dormia rodeado por literatura e livros de direito (dali tirei e li uma daquelas viagens do carlos castañeda e dois de três livros do jorge amado sobre os comunistas na era vargas). no caminho que ia da timbiras, no funcionários, até a desembargador alfredo de albuquerque, no santo antônio, eu subia a joão pinheiro, com seus casarões antigos e a lanchonete xodó, até a praça da liberdade. volta e meia eu desviava meu curso e ia parar no cine belas artes, pegava uma sessão gratuita de curtas às 18h ou assistia a algum filme sozinho, lembro muito bem de Estorvo, do Ruy Guerra, e de como saí chapado (era o início de uma "educação cinematográfica"). quando não tinha dinheiro ou saco para ir ao cinema, seguia em frente aproveitando o movimento das pessoas que andavam na praça no fim de tarde fresco da cidade, sempre olhando para o lado esquerdo, onde via as curvas do edifício niemeyer. naquele ano, o itamar franco, então governador, decidiu enfrentar fernando henrique cardoso com a artilharia pesada da polícia militar de minas gerais. do alto do palácio da liberdade, atiradores de elite miravam não sei o quê à frente, um tanque ficava estacionado próximo ao muro lateral e uma barraca de lona armada no jardim servia como abrigo às discussões sobre o rumo da batalha (ou eu acabei de inventar todas essas imagens?). acho que não! depois de cruzar um pedaço da savassi, passava em frente ao café com letras (não tinha nem um tostão para gastar ali) e às vezes esticava até o unibanco savassi, salinha miúda onde vi, com minha mãe, em 1996 muito provavelmente, "Segredos e Mentiras", do Mike Leigh. o napster mal tinha começado e na mesma rua havia uma locadora de cds. uma vez loquei o "The battle of Los Angeles", do Rage Against the Machine, e o "There is nothing left to lose", do Foo Fighters. sempre gostei mais do rage e entre os 17 e os 18 minha preferência era o que eu rotulava como rock político. nessa etiqueta eu colocava dead fish, rage, chico science e nação zumbi, o rappa e... que merda de rótulo eu fui inventar? a avenida do contorno eu atravessava em frente a um sex shop e seguia um quarteirão na leopoldina, rua famosa pela vaquinha que já mudou de roupa várias vezes. virava à direita e, pronto, tava em casa. se eu quisesse outra experiência urbana, eu seguia pela rua da bahia direto, um quarteirão acima da joão pinheiro, e passava por mil bares e cafés que se enchiam de gente, até chegar à contorno, mas esse percurso eu raramete fazia. isso tudo não importa a muita gente, importa dizer que eu escrevia mal. na agenda restam três textos de tamanho médio e alguns comentários. esses reativaram a memória que já ia se apagando: "Show no Expresso da Meia-Noite. Putrifocinctor (punk), Slush e Mel Azedo (banda do Tingles)... doido demais". Expresso era um bar fechado, com sinuca no primeiro cômodo e um palco nos fundos e Tingles, um amigo de amigos. sua banda tinha dois hits absolutos: "Beco sem saída" e "Vovó matou o neném". mais do que títulos para as músicas, essas eram as frases repetidas à exaustão na velocidade dos refrões grudentos e inesquecíveis ("eu entrei num beco sem saída, eu entrei num beco sem saída"). isso foi em 20 de maio. oito dias depois fui a Lagoa Santa explorar umas cavernas. estalactites, gmites, desenhos rupestres, essas coisas. depois escrevi: "curso de espeleologia: do caralho. Laura, espeleóloga...". nem precisa dizer, era uma estudante linda de geografia da ufmg. na agenda também estavam tíquetes de cinema (apenas 3, de um shopping. o belas artes, como o metrópolis, não deixava recordações em papel), ingressos de shows e festivais de colégio (naquele ano fui a 4, sensacionais. assisti diesel, hoje udora, em 2, somba em outro e mil outras bandinhas divertidas). foi minha primeira e única tentativa de um diário que nem era tão diário assim. abandonei as agendas para fins de recordação e daqui a alguns anos, quando tiver que jogar alguma coisa fora para limpar espaço na memória, terei apenas que apagar alguns posts desse blog.

04 junho 2008

"As mulheres são putas assassinas, Max, são macacos enregelados de frio que contemplam de uma árvore doente o horizonte, são princesas que procuram você na escuridão, chorando, indagando as palavras que nunca poderão dizer"

Trecho do conto "Putas Assassinas", que dá nome ao livro de Roberto Bolaño

01 junho 2008

"Let's Dance", do David Bowie. Essa foi a música que mais tocou nas rádios norte-americanas, segundo a Billboard, no dia 18 de maio de 1983.

Agora clique aqui e saiba qual foi a #1 no dia em que você nasceu!

28 maio 2008

vamos brincar assim: aqui eu tento fazer o que, lá fora, chamam literatura.

27 maio 2008

jazz e blues II*

Se nos dois anos anteriores, o Rio das Ostras Jazz e Blues Festival preferiu os instrumentos de sopro (apresentando Ravi Coltrane, James Carter e Wallace Rooney, entre outros), a sexta edição do festival, que começou na quarta e foi até o último domingo, teve como atrações principais músicos que criam sua arte nas cordas.

Mas o festival foi além do violino de Regina Carter e das guitarras de Russel Malone, John Mayall & The Bluesbreakers, James “Blood” Ulmer, Vernon Reid e John Scofield. Foram 18 atrações e 25 shows em cinco dias, uma maratona de improvisações jazzísticas, bluesmen empolgados, artistas encantados com o público e platéia enlouquecida em apresentações gratuitas.

A maior supresa veio de New Orleans (EUA), terra do blues, com uma proposta de renovação do estilo. Como uma tropa de choque postada à frente do palco, a linha de quatro trombones do Bonerama, com o suporte de bateria, guitarra e uma tuba, deu um show de energia passeando por músicas tradicionais, inéditas e releituras de “The Wizard”, do Black Sabbathe, e “The Ocean”, do Led Zeppelin, dois dos riffs mais conhecidos do rock’n’roll.

“New Orleans é ótimas! E está ficando melhor!”, disse Craig Klein, um dos líderes do Bonerama, no palco da Praia da Tartaruga na sexta-feira à tarde, para uma platéia surpresa com as distorções de um trombone eletrificado. Em seu instrumento, um adesivo dizia “ReNew Orleans” (trocadilho com renove New Orleans).

O pai do blues britânico John Mayall, 73 anos, à frente da banda The Bluesbreakers, era sem dúvida a atração mais aguardada. Mas seu show esteve longe de ser o melhor. O músico se irritou com um teclado misteriosamente desprogramado e o que se viu foram momentos de tensão resolvidos sob o olhar angustiado dos fãs. Com Mayall longe da guitarra, quem se destacou foi Buddy Whittington.

John Scofield, por sua vez, abriu o show com “House of the Rising Sun”, um blues tradicional gravado por vários artistas (Bob Dylan, entre eles, em 1962), que está presente em seu “This Meets That” (2007), disco no qual baseou a maior parte do repertório dos dois shows.

Acompanhado por baixo elétrico (do aclamado Steve Swallow), bateria e um trio de metais, Scofield fez um show extremamente técnico e introspectivo que fez apenas uma concessão ao público: “(I Can't Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, que fecha seu mais recente lançamento. No encerramento do festival, domingo à tarde, Scofield tocou para uma platéia distante, impedida de se aproximar do palco da Praia da Tartaruga pela maré alta.

“The master of disaster!”, anuncia Vernon Reid, guitarrista do Living Colour. E só então James “Blood” Ulmer sobe ao palco de Costazul, no sábado à noite, para, sentado em uma cadeira, executar clássicos do blues com o dedilhado mais cool do festival. Um dos poucos e grandes nomes da guitarra na vertente conhecida como free jazz, Ulmer tem se dedicado ao blues elétrico moderno nos últimos anos.

Em duas apresentações, Ulmer executou em sua guitarra canções clássicas de Willie Dixon, John Lee Hooker e Muddy Watters, do disco “Memphis Blood: The Sun Sessions” (2001). O álbum foi produzido por Reid, daí a explicação para sua participação especial. Sem a rigidez dos protocolos, o guitarrista fez o melhor show do festival na Lagoa de Iriry, domingo à tarde, com solos de guitarra desconcertantes e refrões cantados a plenos pulmões.

*sem a edição do Caderno2 de hoje.

23 maio 2008

jazz e blues I

"já ouvi esse disco mais do que a minha própria voz!". essa comparação eu inventei ontem no final da tarde, sentado em uma pedra, enquanto via as ondas do mar baterem perto do palco da Praia da Tartaruga, em Rio das Ostras. pensava em quantas vezes o baterista e o tecladista/guitarrista da banda da cantora Taryn Szpilman, que se apresentava no 6º Rio das Ostras Jazz e Blues Festival, tinham colocado em seus toca-discos algum álbum do Led Zeppelin. Movido pela imagem, pelas caras e bocas que eles faziam e pelos solos que mostravam, ignorei a possibilidade de eles nunca terem escutado um disco inteiro de Robert Plant e Jimmy Page. O fato é que aquele show foi o pior do dia e de todos os shows que já assisti aqui, em três anos de festival. De Billie Holliday a uma composição recente que a cantora descreveu como samba-rock, mas que não tinha nada do balanço brasileiro mas apenas um pandeiro no início, o show teve Janis Joplin, Jimi Hendrix, Ray Charles, James Brown e, claro, Led Zeppelin. Segundo eles, "passeio pelo blues", para mim falta de critério.

19 maio 2008

você só se apaixona por uma garota quando a vê dormindo. obviamente você também pode não se apaixonar por uma garota se a vir dormindo. essa é uma teoria. se ela dormir como a personagem da norah jones em My Blueberry Nights dorme no balcão daquele café nova iorquino, bêbada e com os lábios sujos de torta, então você não vai resistir. acho que é por isso que eu tenho tanta vergonha de cochilar no ônibus, na volta para casa depois do trabalho. talvez alguma garota também pense assim e eu não sei se durmo de um jeito bonito. alguém dorme direitinho em um ônibus?

18 maio 2008

São 5 da tarde. Eu acordei às 8h, muito atrasado, por sinal, para o trabalho (é, de vez em quando as pessoas trabalham aos domingos). Levando-se em conta que, nesse dia, as pessoas normalmente saem da cama por volta das 10h, se não tiverem, no dia anterior, ido a uma boate, festa ou coisa parecida, e que as que foram a alguma boate, festa ou coisa parecida só vão acordar depois de meio-dia, então já se passaram sete horas úteis. Nem tão úteis, porque domingo é dia de não fazer nada, mas suficientes para comer, ver um pouco de televisão, checar os e-mails, perder um tempo no msn e mandar uns recados pelo orkut. Deu tempo de ouvir música, assistir o primeiro tempo de algum jogo do campeonato brasileiro e, os mais espertos, aposto que assistiram algum filme no cinema. Mães, é claro, foram além desse marasmo e cozinharam, foram ao supermercado (as que trabalham durante a semana) e talvez tenham levado o cachorro pra dar uma volta na rua. Passadas tantas horas, quem gosta de mim de verdade ligou para dar os parabéns (não foram muitos, claro); quem eu acho que precisava de um empurrãozinho eu liguei, avisei e aproveitei para ouvir os parabéns; os conhecidos, as pessoas distantes por algum motivo e as preguiçosas deixaram um scrap, mandaram uma mensagem pelo celular ou pelo msn (foram muitas); os amigos de verdade aparecerão logo mais e farão as coisas do modo tradicional, abraços e beijos, que é mais legal. Nessa conta, só uma coisa me intriga: até agora nenhuma ex-namorada ligou, nem mandou scrap, e-mail ou mensagem de celular, também não liguei avisando, porque ainda resta uma ponta de orgulho, e, pelo andar da carruagem, só passarão pela Oscar Rodrigues de Oliveira se esta for a última rua da cidade.

12 maio 2008

só pra registrar uma façanha. 20 meses de revista Piauí e é a primeira edição que eu leio de cabo a rabo, sem deixar passar nada. e foi até antes do fim do mês. esse número está sensacional, tem Ralph Steadman contando aventuras com Hunter S. Thompson; Ana Luisa Escorel em um texto belíssimo sobre Antonio Candido; e desenhos impagáveis de Sempé!

17 abril 2008

Raimundo de Oliveira é um personagem admirável. Organizador do Femusquim, que já passou da décima edição, do Encontro de Chorinhos e Chorões, na quarta, dono do desalojado Botequim do Femusquim, apaixonado pelo bairro dos Alagoanos e pedreiro.

Maior produtor cultural da Capital, pela marginalidade dos eventos que organiza, sempre no alto do morro onde vive, longe dos centros consagrados da cultura na cidade, Raimundo não se rendeu aos cargos públicos, aos eventos pagos em espaços públicos, às ongs e associações montados apenas para arrecadar patrocínios.

Continua vivendo no morro, procurando um novo lugar para o seu bar ("de onde se possa avistar a cidade"), organizando seus festivais de música que movimentam a cidade e trabalhando como pedreiro para se manter.

07 abril 2008

expurga o que?

Chega a ser estranho encontrar o MySpace (indicado por um amigo) de alguém que você vê passar às vezes pela rua, que você sabe que toca em uma banda cover de The Strokes, mas nunca imaginou que fizesse música pra valer, gravasse em casa, no computador, e ainda por cima fosse essa música muito boa. Eu me sinto assim ouvindo o Fê Paschoal e suas três composições disponíveis. Mímica é a melhor delas.

"Mas que saudade que me deu, pequena
de namorar
Ver o luar no brilho branco do seu riso
que é de me cegar"
De letra ingênua em sua declaração de amor e um violão dedilhado, simples assim. Fez recordar, pelo jeito de cantar, Hermes de Aquino, compositor-de-um-hit-só, a linda Nuvem Passageira.

Fê faz parte de um movimento chamado Expurgação, sem compromisso com a técnica e de inspiração hippie futurista. O manifesto do grupo está publicado em um blog, onde tentam se definir.
"Somos um grupo de amigos vivendo em algum canto do mapa. Assim como você, vivemos nossas loucuras e angústias. Vivemos num mundo de explosão tecnológica e vemos os valores de nossos pais caindo por terra abaixo. Num lugar onde nada faz sentido, onde nossas dúvidas só aumentam a cada passo que damos, negamos a impotência que nos é relegada e tentamos dar nosso último suspiro, a cada dia que se passa. Num momento em que tudo o que fazemos é ensaiar o caos e inverter valores, a não-dualidade toma forma (de alguma foma) através da informação que flui pelas nossas cabeças."
Fê Paschoal toca na Ufes nesta quinta, acompanhado de sua banda, Os Expurgadores, depois das 20h, no Auditório do IC2.

27 março 2008

algumas idéias bem rápidas

#1 Paranoid Park, do Gus Van Sant, é um filme genial. Superior a Elefante, talvez até a Últimos Dias, que eu ainda vou rever.

#2 O Moquecada segue os moldes do falecido blog Papel Pobre e do bombado Te Dou Um Dado? para zoar a imprensa capixaba, os apresentadores de TV, as colunas sociais e as modinhas da Ilha. É divertido às vezes, sem graça na maior parte do tempo, mas vale a pena ver (de novo?).

21 fevereiro 2008

féretro

"O mito do irmão caçula não incomodava o músico Araken Peixoto, pois cada vez que ia aos shows de Cauby, recebia ele mesmo afagos no ego, de fãs apaixonadas por seu pistom -as mesmas que lhe renderam homenagens no enterro."

Já parou pra pensar que a morte rende ótimos filmes, livros, músicas? Rende até lindos textos jornalísticos como esse (primeiro páragrafo) de Willian Vieira, da seção de obituários da Folha de S. Paulo de hoje (21/02).

Ou esse aqui: "'O negócio dela era ganhar dinheiro para se transformar', diz a família, pasma com o fim brusco da odisséia particular de Thesca -que deixou Teresina para se travestir em São Paulo, implantou silicone em busca do corpo perfeito e morreu sem realizar seu sonho italiano.", do mesmo autor, na mesma parte do jornal de ontem (20/02).

Isso é coisa de artista! Tanto que a Companhia das Letras publicou há pouco tempo "O Livro das Vidas", com textos da seção de obituários do The New York Times. Gay Talese já tinha escrito um artigo intitulado "Sr. Má Notícia", sobre o repórter responsável pelos textos. No Brasil, a prática é pouco comum, acho que só a Folha pratica.

adendo #1 A Revista Piauí fez um perfil do obituarista da Folha na edição de fevereiro, chamado "A Logística de Fazer um Morto", é só clicar e ler. Pros preguiçosos, ele tem só 23 anos e está há pouco mais de 3 meses no cargo.

adendo #2 Não resisti e copiei mais um trecho: "Um raio caíra sobre Polaco, que morreu naquele fatídico sábado, aos 41. Quem o conhecia diria que 'morreu fazendo o que gostava'."
#1 a descoberta boa da semana é Thao Nguyen & The Get Down Stay Down. O disco We Brave Bee Stings And All começa muito bem com a divertida "Bag of Hammers". Ouve aí!

#2 as coisas claramente não estão indo bem quando, em menos de duas semanas, você estraga sua cabeça em um ar-condicionado e leva três pontos, e em seguida quase quebram seu nariz com uma braçada involuntária no que deveria ser apenas mais uma linda jogada cuja única conclusão aceitável seria o gol.

01 fevereiro 2008

porque só aos poucos você descobre tudo o que perdeu. também encontra ao acaso objetos herdados involuntariamente. e, quando a partilha não é completa, ainda haverá muito do que se arrepender.

o que tomaram sem você perceber. o que, depois de muito insisitirem, levaram com seu consentimento. aquela bolsa bonita do festival de cinema. um creme de cabelo idiota. o que deu com alegria. o que ganhou sem pedir. o vidro com uma mecha de cabelo amarrado em laço de fita. as cartas, os bilhetes de bom dia. a marca do batom no espelho do banheiro. o gosto do bolo de cenoura com cobertura de chocolate.

31 janeiro 2008

É melhor não prestar atenção ao hype que andam arranjando pra cima da Mallu Magalhães, a cantora/compositora de 15 anos que tem quatro canções no myspace. Porque se escutar Tchubaruba, uma dessas músicas, você não vai mais parar de ouvir e cantarolar.

#1 Juno é o Pequena Miss Sunshine da temporada 2008.

17 janeiro 2008

maldita hora em que eu decidi colocar um dvd de House no aparelho. Agora eu quero assistir à série inteira, ser amargurado para o resto da vida e ter uma bengala.

14 janeiro 2008

#1 qual o procedimento correto (ou as reações possíveis) para quando uma amiga pergunta "Já pegou ela?", fazendo referência a alguma garota, você responde afirmativamente e ouve um "Eu também".

#2 depois de mais um show do Dead Fish, afirmar que o hardcore, na forma como ele é hoje, foi forjado no Espírito Santo nos últimos 17 anos é mais sensato do que procurar evidências de que a bossa nova nasceu aqui.

10 janeiro 2008

escrevo cartas imaginárias de amor e reconciliação e as enviarei pelas nuvens negras que se dirigem para o norte beirando o oceano. elas cairão como a chuva espessa com a qual pretendo lavar sua alma e renovar minhas esperanças de que você, de volta, virá até onde estou. E não serão poucas as palavras ásperas nem fracos os tapas nervosos com os quais mostrará o que sente.

06 janeiro 2008

Cinema é um negócio bacana. O problema é O QUE as pessoas fazem com ele.

Só pra deixar claro, a Internet também presta incalculáveis serviços. A culpa é das mulheres que não vão aos encontros marcados.

31 dezembro 2007

em construção

Senso de oportunidade foi a definição pouco culposa que encontrou para sua capacidade de cometer erros de toda sorte. O caminho até o novo conceito foi longo e a resolução, claro, motivada pelo arrependimento. Já há algum tempo não pensava em termos do que seria feito e do rumo que as coisas tomariam depois de alguma decisão. Preocupava mais vislumbrar como a vida não seria ou como seria se deixasse de lado a curiosidade. Havia excluído do rol de reações possíveis a possibilidade de recusar novas experiências. Mil vezes correr riscos e ser atropelado pelos acontecimentos a privar-se no retiro da rotina.

Quanto às oportunidades, não gostava de perdê-las, embora não se esforçasse muito para criá-las. Surgiam na forma que ele sonhasse. Não da noite para o dia, mas no tempo certo dos desejos que aparecem de estalo e se tornam mais agudos à medida que crescem esquecidos, despertados vez ou outra por uma lembrança singela ou voluptuosa.

Após cada decisão, o ritual incluía, ao fim, pedidos de perdão. A si mesmo e aos outros, como forma de se desculpar pelo que acabara de fazer. Era assim que navegava, aproveitando gratuitamente a velocidade dos ventos, sem oferecer nada em troca, e elaborando justificativas aos deuses por esta contabilidade vantajosa. Tanto que se acostumou e com o tempo passou a se culpar cada vez menos, tirando o máximo proveito do que os meios lhe ofereciam.
"Estão separados?" "Não exatamente. Ninguém se separa, Rímini. As pessoas se abandonam. Essa é a verdade, a verdade verdadeira. O amor pode até ser recíproco, mas o fim do amor não, nunca. Os siameses se separam. Mas não se separam, tampouco: porque sozinhos não conseguem. Um terceiro precisa separá-los: um cirurgião, que corta pelo meio o órgão ou o membro ou a membrana que os une com um bisturi e derrama sangue e na maioria das vezes, diga-se de passagem, mata, mata um deles, pelo menos, e condena o outro, o sobrevivente, a uma espécie de luto eterno, porque a parte do corpo pela qual estava unido ao outro fica sensibilizada e dói, dói sempre, e se encarrega de lembrá-lo, sempre, de que não está nem nunca vai estar completo, que isso que lhe tiraram nunca mais poderá ter de novo."


Sofía, em O Passado, o livro/filme que provoca em mim as piores recaídas.

25 dezembro 2007

você percebe que cresceu, o natal mudou e não há nada mais a ser feito quando ganha de presente uma furadeira de impacto 450W black&decker e dois jogos de brocas, um para madeira e outro para concreto.

mas ainda é melhor que roupa!

23 dezembro 2007

espírito natalino

#1 continua o projeto autro-destruição do self. já teve noite de chuva com cachaça e cerveja na barra do jucu, viagem de onibus com velha-doida-cheia-de-sacola do lado e agora batida policial por reclamação de barulho.

#2 manhuaçu é assim, você pode dormir de edredon na primeira noite de verão.

#3 poucas pessoas no mundo têm o poder de me fazer comprar um guarda-chuva de 50 reais.

10 dezembro 2007

The Police

Do Caderno Dois de hoje.

The Police para quem precisa

Está tudo ali. A fusão de ska e rock, Sting com sua dancinha característica e seus agudos inconfundíveis, Andy Summers discreta e elegantemente explorando sua guitarra, e Stewart Copeland que 24 anos após a última turnê se dedica à bateria com a mesma energia e aquelas luvinhas de sempre. Todos os elementos que fizeram do The Police uma das bandas mais importantes da história da música.

E os 74 mil que estão no Maracanã na noite quente de sábado mal podem esperar. A abertura a cargo dos Paralamas do Sucesso, filhote brasileiro do Police, serve para lembrar que os anos 80 estão logo ali, no camarim.

No gramado, antes do show, um grupo de homens e mulheres com idade para ter visto a banda antes do fim prematuro, em 1984, gasta o tempo jogando Detetive, aquele de matar com uma piscadela sem ser descoberto pelos policiais. Dois amigos que se formaram juntos na escola do exército, um deles com o filho que nasceu bem depois do Police tocar pela primeira e única vez no Brasil, em 1982, se encontram e marcam de tomar um chopp pra lembrar os velhos tempos.

A ansiedade se torna euforia quando, em alto e bom som, Bob Marley entoa “Get Up, Stand Up”. É a deixa para o trio entrar no palco e soltar logo de cara “Message in a Bottle”, empolgante como sempre, no volume ideal para todo o estádio ouvir. Em seguida, com “Synchronicity II” cinco telões de alta definição sintonizam os três senhores de cabeleira amarela, outra marca registrada da banda.

Só antes de “Walking on the Moon”, Sting conversa com o público. “Que Saudade. Querem cantar comigo?”, ele diz, em português. E depois pede que o público mostre as mãos em “Voices Inside My Head”, canção pouco conhecida que ganhou, no show, um solo gigantesco de Andy Summers, contrariando a estética do “menos é mais” cuja bandeira a banda erguia mais de 24 anos antes.

“Don´t Stand so Close to Me” voltou a trazer o trio para junto do público, antes de uma seqüência de músicas com andamento lento e pouco apreço popular que só foi quebrada três músicas depois com “Every Little Thing She Does is Magic” e com “De do do do De da da da”. Mais adiante, “Invisible Sun” era ilustrada, nos telões, por fotografias de crianças vítimas da pobreza e das guerras.

Em “Walking on your footsteps”, Sting usa uma flauta indígena e Copeland sai da bateria para tocar percussão e xilofone. Mas o exotismo pára por aí: em uma seqüência final com seis hits executados com firmeza a multidão tem a certeza de que presenciou um capítulo marcante da história da música. “Roxanne” é aclamada enquanto o palco é tingido de vermelho. “Every Breath You Take” é cantada por todos. “Next You”, e sua força incrível, é o final perfeito para um concerto de rock’n’roll.

08 dezembro 2007

tive medo que o Herbert Vianna quase morresse no palco, acho que Edith Piaf influenciou drasticamente minha imaginação. ele vai ficando vermelho e parece que vai explodir a qualquer momento. mas suportou os 50 minutos de show, errando na guitarra algumas vezes, claro. os Paralamas privilegiaram as músicas que fazem referência à sonoridade do The Police, os ska's que acumularam ao longo da carreira. teve até Lourinha Bombril. Disseram que o Manu Chao faria uma participação, mas ele não veio.

2014 que nada.

todo menino quer ser jogador de futebol. eu também queria, mas não passei nem perto de ser bom de bola. isso não importa mais depois que você pisa no gramado do Marcanã, nem que seja por cima daqueles pisos de plástico que protegem o campo dos pés pouco hábeis e sem travas dos fãs de rock'n'roll.

menos ainda quando seu acesso para o campo se dá por um dos túneis, saindo de dentro da terra para ver à sua volta as arquibancadas lotadas em um fim de tarde carioca.

agora escrevo de um vestiário, pisando a grama sintética onde alguns caras bem mais dentuços e ricos do que eu já ensaiaram e a única certeza que eu tenho é a de que nenhum jogador de futebol tem celular Claro, porque aqui eles não funcionam!

depois eu conto o resto.

20 novembro 2007

no pós orgia vitória cine vídeo você ouve várias revelações:

#1 descobre que uma nova amiga tem um roteiro de um pornô-lírico-colaborativo de 15 minutos.

#2 descobre que um velho amigo tem um roteiro para um longa sobre a juventude do início do século XXI (baseado na sua turma de amigos e em algumas brincadeiras bem típicas).

#3 se descobre rabiscando idéias e imaginando cenas de, pelo menos, três documentários diferentes. E, é claro, sem saber como vai realizá-los.

30 outubro 2007

Domingo, 28 de outubro de 2007, é o Dia em que Cat Power bebeu caipirinha na Rua da Lama. Mas esse episódio já caiu na boca do povo.

A novidade é que, como se não bastasse a cantora ter sentado no Abertura na noite anterior, na segunda-feira pela manhã o tradutor dela ligou para duas fãs convidando para um passeio. Na van do festival, às 10h30, elas foram à Praia da Costa, depois almoçaram moqueca capixaba e ainda tiveram tempo para fazer compras em um brechó.

29 outubro 2007

Qual é o fascínio exercido por tradutores na literatura e no cinema? Posso citar agora, sem pensar muito, três exemplos recentes: livros cujos personagens centrais são tradutores. "Travessuras da Menina Má", do Mario Vargas Llosa; "Até o Dia em que o Cão Morreu", de Daniel Galera, e "O Passado", de Alan Pauls. Os dois últimos eu não li, apenas assisti às adaptações para o cinema feitas por Beto Brant e Renato Ciasca, "Cão Sem Dono", e Hector Babenco, "O Passado".

Os três são personagens errantes, que se tornam solitários devido a relacionamentos fracassados. Suas carreiras sofrem altos e baixos, parece que sua arte é volátil como a memória humana. O jogo de cintura para encarar palavras e expressões idiomáticas, em russo, francês, japonês ou inglês, contrasta com a falta de tato nos amores.

Daí que realmente parece mais fácil entender russo do que saber ler uma mulher.

Killers no Tim Festival

Pra lembrar 2005, quando eu escrevi um texto babando pelo show do Strokes em São Paulo, coloco aqui o que deveria sair no Caderno Dois de hoje. Não tinha espaço suficiente.

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O teclado armado na frente do palco, enfeitado com luzes e flores, funciona como um púlpito. Brandon Flowers é o pastor que conduz os fiéis a emoções extremas, do transe introspectivo à catarse enérgica. Ele é a autoridade máxima, a quem cabe dar boas-vindas e manter a harmonia em Sam´s Town, o lugar criado para que os Killers convertam o público ao seu rock’n’roll de sonoridade oitentista.

O culto começa efervescente. A banda oferece os melhores sermões de seus dois discos (“Hot Fuss” e “Sam´s Town”) em uma seqüência que parece interminável. São sete motivos para o público que lota o palco principal na noite de sábado do Tim Festival no Rio não ficar parado. Da música tema a “Jenny Was a Friend of Mine”, passando pela energia de “Bones” e “Somebody Told Me”.

Flowers se emociona quando canta “Read My Mind”, com seu romantismo deslavado que remete a U2. Ainda há tempo para o clímax, com “Mr. Brightside”. E, no final, os fiéis se lembrarão do que Flowers cantou, acompanhado apenas pelo órgão, em “Enterlude”, no início do show: “We hope you enjoy your stay / And it´s good to have you with us / Even if it´s just for the day”.

A energia que os Killers gastaram no sábado só se compara ao espetáculo de Björk na noite de sexta, no mesmo palco. Juliette Lewis e sua banda, os Licks, que abriram para The Killers, até tentaram: a atriz de “Assassinos por Natureza” mostrou disposição em seu rock’n’roll pesado. No final da apresentação, depois da cena manjada em que o astro do rock se enrola na bandeira do Brasil, ela se jogou nos braços da platéia.

Björk não precisou de tanto. A cenografia com flâmulas e estandartes ilustrava o cenário com peixes, anfíbios, répteis e aves. A evolução da espécie humana estava ali, em carne e osso, envolvendo a platéia com sua música eletrônica, sem exageros vocais. Destaque para “Hunter”, “Pagan Poetry” e “Declare Independence”, de seu último disco.

Já os Arctic Monkeys, última atração do palco principal na sexta e grande trunfo do novo rock, mostraram frieza e não surpreenderam. Rock simples e direto, com as guitarras dançantes de “Brianstorm”, “D is for Dangerous”, “Fluorescent Adolescent” e “I Bet You Look Good on the Dancefloor”.

25 setembro 2007

música como companheira

eu nunca tinha escutado um disco de rap e não sei porque comprei, em um camelô, por cinco reais, "Sobrevivendo no Inferno", dos Racionais MC´s. Era 1999, dois anos depois do lançamento, e o ambiente não favorecia um encontro semelhante. Com uns amigos tinha ido para Caputira, uma cidade esquisita perto de casa, para ficar hospedado numa fazenda com mais de cem mil pés de cafés e curtir a festa da cidade. Uma das atrações era o Latino e a única coisa que a gente fazia era beber run, ficar na piscina e ouvir música.

ouvi o disco no carro de alguém e não consegui parar de escutar durante alguns meses. Ainda não havia Napster e na minha casa não tinha MTV. Meu maior desafio era decorar a letra de Diário de um Detento, sem saber que existia um clipe que ganhava prêmios. As lendas que rondavam a figura do Mano Brown eu só fui conhecer alguns anos depois, mas só me prendi mesmo ao lance de se preservar em relação à cobrança da mídia.

ao contrário de todos os textos que lia sobre a banda e o letrista, elevando Racionais à categoria de referência para os pobres e Mano Brown à de líder revolucionário, nunca depositei na música feita por eles esperanças de resolver os problemas. É arte, pura e simplesmente. Há o discurso, mas com o passar dos anos e dos discos, e o próprio líder admite, o radicalismo arrefeceu, dando lugar a uma postura de aceitação a todo tipo de posicionamento ("Discurso é corda para se enforcar").

o que não significa esvaziamento de conteúdo. Acho a atitude de valorização do "eu" - de que cada "mano" é um indivíduo que deve buscar em si mesmo, e não em exemplos maiores, seu diferencial e seus talentos - madura e honesta. Mano Brown se esquiva com razão e bom senso da figura de herói e "bom exemplo" ("Eu sou eu").

cinco anos depois do pirata de camelô no interior de Minas, "Nada Como Um Dia Após o Outro Dia" eu comprei original, numa loja em Guarapari. R$ 23,90. duplo. preço honesto.

#1 tudo isso pra falar da entrevista do cara no Roda Viva, agora há pouco. Inseguro no início, à vontade a ponto de sorrir do meio do programa em diante, Mano Brown revelou, durante pouco mais de uma hora e meia, suas idéias e suas contradições ("As contradições só acabam quando morre").

chamou os traficantes de comerciantes. Igualou a cachaça 51 à maconha e os traficantes aos donos da Ambev. Deixou claro seu descrédito quanto à classe média, que ele chamou de finada. E, acima de tudo, reafirmou sua arte e sua humildade ("Eu sou um cidadão. Não sou líder de nada").

20 setembro 2007

#1 Não sei vocês, mas quando eu uso aqueles guarda-volumes de rodoviária sempre tenho a sensação de que meu parceiro no assalto descumpriu o trato, deu um jeito de arrombar o cofre e levou todo o dinheiro. Mas dessa vez (pelo menos) minha mochila continuava no mesmo lugar.

#2 Ainda no guarda-volumes, compartilhei com o vigia a minha obsessão por um Rainha Iate.

_ Onde o senhor comprou esse tênis?
_ Rapaz, não acha mais. Mas tenho um amigo, numa loja, eu ligo e ele guarda pra mim quando aparece. Trinta e nove e noventa. Eu gosto de usar para trabalhar e dirigir. Acelero até com esse aqui.

E mostra o tênis preto, já meio gasto.

_ Quando você voltar passa aqui que a gente vai lá na loja e compra.

Vou passar, seu Antônio, vou passar.

#3 Na sala de embarque de Confins tem uma Istoé largada numa mesinha entre as cadeiras. A manchete na capa? "Oh, Meu Deus! Vira, vira, vira!".

Todo mundo que passa vê e franze a testa. Olha pro lado pra se certificar de que não é um brincadeira, mas não encosta a mão.

14 setembro 2007

metro goldwyn mayer

Não sei se nossa cidade (vitória, para que fique bem claro) será um dia servida com o meio de transporte mais eficiente e charmoso que os homens inventaram. (eles ainda não fizeram o teletransporte funcionar). mas num devaneio coletivo, escolhemos com bastante antecedência os nomes das futuras estações de metrô da cidade.

Imagina como seria legal aquela voz metálica dizendo no subsolo coisas como: estaçããão lama, e você sairia do subsolo e teria à sua frente nada mais que todos os seus amigos no Cochicho depois de um dia de trabalho desgastante.

E aí, se quisesse ir ao Centro, poderia optar pelas paradas praça oito, onde sairia de um dos lados do relógio; moscoso, e aí teria à sua frente os sobrados decaídos, da antiga zona de prostituição; ou vila rubim, que nos dias posteriores à semana santa emanaria um cheiro inigualável de palmito em decomposição.

Caso se estendesse para os municípios vizinhos, os nomes poderiam ser ainda mais lúdicos. levando em conta uma inusitada passagem submarina, seríamos brindados com uma estação azteca (em Vila Velha), ou uma roda d'água, em Cariacica.

22 agosto 2007

quando, onírica e ingenuamente, pensei em algumas palavras que usaria para me definir, tratei logo de descrever a imagem que eu tinha de felicidade. isso foi há uns 4 anos, quando eu fiz meu perfil no orkut.

falei de uma casa no alto de um morro, onde embaixo passava um rio caudoloso. fazia frio. lá eu andei a cavalo, coisa rara. esse lugar existe e fica no interior de Minas, num sítio que visitei mais ou menos em 1999.

se chama Sem Peixe e lembro que o nome da cidade me marcou tanto quanto a beleza da roça, o contraste entre o verde do pasto e o marrom das águas de um afluente do Rio Doce que naquela parte não oferecia muita pesca. só fui entender o que aquele pedaço de chão significou pra mim uns anos mais tarde e agora me deparo com a notícia: "Sem Peixe tem o 1º homicídio em 10 anos".

o sítio deve continuar o mesmo, no mesmo lugar. o rio talvez esteja um pouco menos caudoloso, assoreado e seco. talvez não faça mais tanto frio e a cidade vai estar mudada quando eu voltar.

10 agosto 2007

acústicuzinho

se existe uma coisa realmente ruim neste mundo barulhento de meu deus isto se chama "Acústio MTV Sandy e Júnior". É pior que o valão da Leitão da Silva.

José Ramos Tinhorão disse na Folha: "Pessoas inteligentes não falam sobre Sandy e Júnior". Eu diria que pessoas minimamente criteriosas falam que o disco é realmente ruim e que o Marcelo Camelo deu o primeiro passo em falso depois do fim do Los Hermanos.

08 agosto 2007

palco

Alguém aí já viu "Um Forte Cheiro a Maçã"? É a peça mais interessante, levando em conta o meu escasso repertório de peças capixabas assistidas de 2002 pra cá.

São treze atores em palco, encenando dramas contemporâneos travestidos de metáfora bíblica, ou o contráio: a última ceia numa cidade portuguesa do século XXI. A opção pelo vocabulário e pelo sotaque portugueses é admirável, não compromete a compreensão dos diálogos e faz coro com autores como José Saramago, que não permite que seus livros sejam "traduzidos" ao "brasileiro".

Outro ponto legal é a revitalização do Teatro Edith Bulhões, espaço bacana também para festas, exibições de filmes e shows.

#1 Em comparação, "Uma Temporada no Inferno", de Wilson Coelho, que esteve em cartaz recentemente no Teatro Galpão, é uma encenação lamentável, exceto pelo ator principal, Maurício Fuziyama, que manda muito bem. Bizarramente, diretor e atores, depois de discurso, ainda convocam os espectadores a discutir a peça no final da apresentação. Constrangedor.

04 agosto 2007

jornalismo capixaba



prólogo: na quinta, um andarilho arremessa um moleque de cinco anos da Cinco Pontes até as águas da Baía de Vitória. Um engraxate que passava na hora pula e salva o garoto.

desenvolvimento: apresentados enredo e personagens, dá-se o drama. ontem a tribuna escondeu o "herói nacional" e a família em um hotel da praia de camburi até ele embarcar num vôo para são paulo, onde gravaria uma participação no domingo legal, do gugu.

epílogo: foto na capa da gazeta da família do menino arremessado. foto na capa da tribuna do engraxate abraçando criancinhas no aeroporto de vitória.

17 julho 2007

abordagens pouco ortodoxas. eficácia não-comprovada.

#1
_ Ei, tudo bem? Me passa seu msn pra gente conversar?
_ E por que a gente não conversa aqui?
_ (...)

#2
_ Sabia que a gente compartilha várias bandas e que nossa compatibilidade musical é Super?
_ ??!!??

#3
_ Oi. Não vai mais atualizar seu fotolog?
_ Pretendo.
_ Legal. Vou comentar...
_ (...)

14 julho 2007

tateou o escuro buscando o anel frio. encontrou a superfície gelada e depois a mão quente, os dedos finos e a pele suave. pousou ali por uns instantes, o braço esticado até o banco do outro lado do corredor. a mão do anel correspondia semi-quieta, latejando.

Imaginou uma mão morena, as unhas sem tinta, o pulso magro. e foi subindo até crer que os cabelos eram lisos e não desciam mais que a altura dos ombros, que o nariz era fino e os lábios, quase imperceptíveis entre duas bochechas macias.

o ônibus seguiu chacoalhando por mais hora e meia. parou quando ele devia descer. foi embora sem precisar olhar para o rosto que identificava o corpo que tinha a mão que o acolheu.

05 julho 2007

ah. o consumismo! essa válvula de escape dos problemas da juventude (juventude?)! se posso ir ao shopping e comprar um tênis novo, eu não preciso mais ter medo!

"My Adidas cuts the sand of a foreign land
with mic in hand I cold took command
my Adidas and me both askin P
we make a good team my Adidas and me
we get around together, rhyme forever
and we won't be mad when worn in bad weather
My Adidas..
My Adidas..
My Adidas"

homenagem a Run DMC e à sagacidade dos modelos adidas originals!

25 maio 2007

você percebe que está criando juízo quando...

...deixa de comprar um disco de samba para investir o mesmo valor em uma tábua de passar roupas.

ou talvez seja só um ato falho.

06 maio 2007

pessoas riem sem parar assistindo Pintar ou Fazer Amor.
definitivamente perdemos a sensibilidade.
ou vão me chamar de romântico?

01 maio 2007

de Calvin das 8h30 para o Calvin das 6h30: "se você não tivesse atrapalhado o meu passado, seu futuro não seria assim".
queimei sua doce lembrança no calor de uma noite.
durou pouco tempo minha memória dos seus gestos.

08 março 2007

volto, ainda temeroso, mas vai ser necessário, após alguns tropeços.

hoje fui homenageado, ainda que de forma rápida e com uma característica inesperada. uma amiga cronista me fez personagem e me definiu como aquele que "entende de canaletas e de como misteriosamente os fios entram lá, perfeitamente conduzidos por seus canutilhos". Tá. Isso ajudou a salvar alguma coisa do dia que descia pelo ralo.

talvez seja uma forma de se destacar na contemporaneidade: pregando canaletas, instalando apetrechos com uma furadeira emprestada, desentupindo pias ou matando baratas. talvez eu chegue lá um dia!

18 dezembro 2006

nada como investir seus trocados no promissor mercado de ações. se tudo der certo, daqui a alguns anos meus 200 investidos há 3 meses serão equivalentes a, pelo menos, um apartamento três quartos. por isso eu devo rezar todo dia para que os irresponsáveis e populistas presidentes socialistas da américa do sul não nacionalizem suas reservas de gás natural e petróleo.

não é esse o espírito? o sério é que a cbn é a maior entusiasta desse novo modo de fazer negócios. em um sábado à tarde escutei nesta emissora, durante mais de uma hora, um debate informal entre três "especialistas" que pesavam os prós e os contras de dois tipos de investimento, ambos em alta nos últimos anos: o mercado de ações e a pizzaria com o cunhado. foi esclarecedor!

08 dezembro 2006

Mais sério que a sensualidade sincera das sereias serenas?

30 novembro 2006

ela apareceu dez anos depois e tinha a cara da patti smith. parecia uma hippie fedorenta e queria me dizer que eu tomei no cu por causa dela no passado.

acordei sufocado e perdi o resto do pouco sono que tinha conseguido juntar naquela noite.

29 novembro 2006

depois da grande festa ele se entregou ao sacrifício. mas não foi sem revolta que o líder acatou a oferenda.

ele chorou enquanto davam o último nó na corda que prendia seu punho, mas era tarde. admitiu todos os pecados, suas luxúrias e manias de grandeza. queria ser completo, queria ser um deus.

morreu ardendo na fogueira. naquele domingo. naquele novembro.

25 novembro 2006

devo confessar que cantar Última Canção, do ícone Paulo Sérgio, no videokê classe de um botequim da Ilha de Monte Belo foi um dos pontos altos da minha existência. Apesar do microfone desligado nos três primeiros versos, a performance contagiou a ligeiramente bêbada platéia. Os aplausos foram importantes para superar um trauma antigo que eu tinha desta máquina maldita!

putaquepariu! essa música merece.

Esta é a última canção que eu faço pra você
já cansei de viver iludido só pensando em você
se amanhã você me encontrar
de braços dados com outro alguém
faça de conta
que pra você não sou ninguém
mas você deve sempre lembrar que já me fez chorar
e que a chance que você perdeu nunca mais vou lhe dar
e as canções tão lindas de amor
que eu fiz ao luar para você
confesso
iguais àquelas não mais ouvirá
e amanhã sei que esta canção você ouvirá no rádio a tocar
lembrará que seu orgulho maldito já me fez chorar por muito lhe amar
peço não chore
mas sinta por dentro a dor do amor
e então você verá o valor que tem o amor
e muito vai chorar ao lembrar do que passou

#1 Eduardim comentando a curta duração de um dos melhores álbuns da história: "Caetano teve ejaculação precoce quando fez esse Transa!". Essa eu queria ter dito!

08 novembro 2006

Ando me equilibrando entre o bom senso cristão e a satisfação. Andam por aí cantando em corredores notas contra mim. Andam, o bom senso e o prazer, em direções opostas. Breve irão se chocar na curva das sensações.

Nota que eu ando em linha torta sem razão pra mentir. Vê que eu ando me dizendo pra cortar em pedaços a razão de sofrer.

(Com facão bem amolado de assustar cidadão no meio do mato!)

04 novembro 2006

quando pensei em você pela primeira vez eu estava no banheiro. me escorava nos azulejos brancos, pisava a água suja empoçada, sentia o fedor insuportável enquanto ouvia o jorro amarelo bater com raiva nas latas de cerveja jogadas dentro do vaso. ali você era a mais suja de todas e eu vomitei.

então me dei conta de que além de suja você só dizia a verdade e decidi não escutar mais. me escondi no interior dos problemas, fiz questão de não dar nenhuma resposta clara e elaborei perguntas difíceis. você se safou argumentando sobre meu egoísmo.

no terceiro ato deste drama no qual nos inscrevemos como protagonistas, você se lançou numa cruzada contra a verdade. recluso, decidi não contestar e de longe mirei seus passos decididos pela vingança.

foi embora o tempo em que nos abraçávamos nos telhados, quando a solidão era um medo distante e sabíamos exatamente o que dizer nos momentos em que palavras não eram necessárias.

22 outubro 2006

você virou sobre a mesa as cartas e elas disseram que eu só te faço mal. depois me deixou com as mentiras e saiu pelos bares carregando a cruz da vingança.

05 outubro 2006

"Usar marcas globais e suas estratégias para posicionamentos contra-econômicos". Esta é a ideologia dominante no grupo dinarmaquês Superflex. Eles decidiram aplicar em produtos analógicos, bebidas, por exemplo, o conceito e as práticas da cultura livre e de "alguns direitos reservados", pensamento originado da licença Creative Commons.

O Superflex primeiro criou uma cerveja liberada para cópia, embalagem e reprodução, agora foi mais longe e junto com produtores de guaraná da floresta amazônica produziu e lançou o Guaraná Power. Eles reclamam o uso das características genuínas da semente de guaraná, isto é, como um tônico natural e não apenas como um símbolo publicitário. Como forma de ativismo político anti-corporação reuniram os produtores da região para pensar em formas de combater o monopólio da fabricação de refrigerante derivado da semente. O fato de os produtores venderem as sementes apenas para uma empresa fez os preços da matéria-prima despencarem de 25 dólares para 4 dólares em quatro anos.

O Superflex acabou usando o Guaraná Power como obra de arte, inscrevendo o projeto em diversas bienais internacionais. Na Bienal de Arte de São Paulo o trabalho foi recusado pela Fundaçaõ Bienal após ser selecionado pelos curadores. A direção acatou um posicionamento do departamento jurídico da entidade, desconfiada e receosa de futuros problemas na justiça acarretados pelo uso da marca guaraná. Agora o grupo lançou um manifesto disponível na página do Guaraná Power.

Sítio do Superflex.
Sítio do Guaraná Power.

04 outubro 2006

se não mantenho nem aquela baixa média de atualizações é porque a vida anda me puxando para outros cantos e exigindo posturas "profissionais", nem por isso entediantes. hoje mesmo conheci Capuaba, em Vila Velha, e até entrevistei um secretário do governo estadual pelo telefone!

adrenalina!

01 outubro 2006

metalinguagem

Em A insustentável leveza do ser, Milan Kundera escreve:

"(...)Como já disse, os personagens não nascem de um corpo materno como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade huamana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta ou sobre a qual nada de essencial ainda foi dito.

Mas não se costuma dizer que o autor só pode falar de si mesmo?

Olhar o pátio, impotente, e não conseguir tomar uma decisão; ouvir o ruído obstinado do próprio ventre num momento de exaltação amorosa; trair e não saber parar na estrada tão bela das traições; erguer o punho no desfile da Grande Marcha; demonstrar humor diante dos microfones escondidos pela polícia: conheci e eu mesmo vivi todas essas situações; de nenhuma delas, no entanto, saiu o personagem que eu mesmo sou no meu curriculum vitae. Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. (...) O romace não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana na armadilha que se tornou o mundo."

13 setembro 2006

ouvi dizer que no dia 15 de setembro, próxima sexta-feira, pela manhã, tem Trasversal e Rodrigo, Gustavo e Marcelo na Sinergia, Mostra de Audiovisual da UVV. Um dia antes acontece a última exibição pública (até que se prove o contrário!) do Não é só uma Passagem.

Ninguém sabe direito a lista de todos os vídeos selecionados, nem os diretores (eu, no caso) foram avisados. Isto porque a produção é falha, ao contrário do REC, da concorrente Faesa, impecavelmente organizado.

#1 E a Transborda? Eu, sinceramente, não entendi a aplicação de tão amplo conceito num festival. Alguém me explica como vai ser a seleção, por favor!

#2 Eu conheço um filme com borda de catupiry! Delícia!

#3 Qual a influência do Guy nestas coisas de borda? piada infame!

05 setembro 2006

tudo bem, eu nunca fui a Parati. cheguei a me inscrever para a oficina de jornalismo literário, mas minha viagem foi abortada. que era um festa esnobe eu já imaginava e amigos que foram reafirmaram. o marcelo mirisola, que eu não sei direito quem é, mas cujo nome eu já tinha ouvido em alguma conversa com a mara coradello, também foi à flip e, sarcasticamente, detonou o evento. enviado pelo zero hora para cobrir a "festa pobre", seu texto acabou rejeitado e, posteriormente, postado neste blog bem legal do mário bortolotto. transcrevo um pedacinho:

"Agora estou aqui nessa cidadezinha de merda,cercado por chiliques nacionais e internacionais,pela paisagem sonífera que encantou Debret,e pedras a judiar dos meus ligamentos;ladeado por escritores "engajados"... (me pergunto: "engajados no quê? Na chatice?") e - evidentemente - atrás de uma maria-rodapé pra comer acompanhada com feijão grosso e costelinha de porco." (tudo)

01 setembro 2006

cybershots

a câmera cybershot e a cultura videográfica. youtube por amostragem!

#1 Hello Kitty numa roda de capoeira: "samba hello kitty!" é intervenção urbana da mais pura linhagem: instantânea, surreal e divertida! site relacionado: culundriarmada.

p.s.: garimpagem do erly!

#2 Compre na Mercearia da Esquina inaugurou um gênero: pobre porco e morte ao porco.
há muito tempo não acontecia. alguns anos atrás, quando a mãe ainda servia seu prato no almoço, era comum deixar a mesa de repente e correr para a frente de casa. ficava ali, porta aberta, parado embaixo do alizar, a varanda à sua frente, do outro lado da grade a rua. e chegava a tempo de vê-la subir pela calçada oposta: os dedos da mão esquerda firmes entre os nós do pano de cozinha branco, o cabelo negro e solto, o quadril alternando como um pêndulo, o mesmo movimento que ele buscaria nas mulheres de todas as outras ruas das cidades pelas quais passou.

ela subia levando aqueles dois pratos de porcelana branca envoltos em pano branco e vestia sempre preto, saia e blusa. o marido, o irmão, o pai, o filho. alguém a esperava subir ladeira tão íngreme, uma destas figuras masculinas que, é certo, teriam a impaciência agravada pela fome. um homem que merecia dedicação de mulher, irmã, filha, mãe.

estático, ele esquecia de comer. vinham da mesa da sala de jantar os gritos pacientes da mãe e, ante o primeiro ruído de arrasto no assoalho da cadeira de cabeçeira do pai, respondia que estava voltando. teria ainda alguns segundos até que a perdesse de vista. na porta, na hora do almoço de todos os dias úteis, ele não queria mais a ordem da casa.

agora ele lembra. agora que é escravo de uma janela por onde vê passar o mesmo balanço em mulher outra. para alcançá-la será preciso arredar os móveis, remover os vasos de flores que tomam o sol da manhã na janela, pegar algum impulso e cair tropeçando naquele sapo de jardim.

30 agosto 2006

intromissão

Um artigo para o Século Diário.

Da Sedução ao Caos.

Há algum tempo, sem pressa, venho lendo A Sedução do Lugar, de Joseph Rykwert, um apanhado de dados históricos e conceituais sobre A história e o futuro da cidade, como indica seu subtítulo. (continua)

23 agosto 2006

o que ficou foi um sorriso debaixo da luz amarela do saguão do cinema. o filme passou como se eu já o tivesse visto e o ineditismo ficou por conta da sua presença, marcada em minha memória com a riqueza de detalhes de um close up. revisitei sua imagem em flashbacks durante as duas arrastadas horas de projeção e cada fotograma descrevia seus movimentos desde o sorriso até o momento em que você tomou seu lugar na sala já escura.

fiquei procurando sua silhueta e tudo o que vi foram malditas cabeças femininas apoiadas em ombros inconvenientes nesta sessão água com açúcar. fiquei sentado enquanto acendiam as luzes. os créditos ainda escalavam a tela até sumirem no carpete escuro quando você se levantou. imaginei você desenhada em gestos e cores numa sequência de Wong Kar Wai, passando por mim displicente, de vestido listrado e luvas negras. então notei que a sessão que exibiu seu sorriso havia acabado e eu veria em todos os filmes que assistisse de hoje em diante as duas cenas que montei com você.

20 agosto 2006

Depois de vencer no 12º Vitória Cine Video, prêmio do júri popular, e no Festival Internacional de Curtas de BH deste ano, melhor curta brasileiro - prêmio da crítica e melhor ator brasileiro, No Princípio era o Verbo, ficção em 35mm de Virgínia Jorge, conquistou três kikitos no Festival de Gramado. O curta foi premiado nas categorias Prêmio Especial do Júri, Melhor Roteiro e Prêmio Canal Brasil.

Vejo que meu candidato no útlimo VCV honrou seus compromissos de campanha. Despretensioso e singelo, o curta vai na contramão do cinema feito aqui (Espírito Santo, Brasil).

Fazendo as contas, No Princípio era o Verbo está entre os mais premiados curtas capixabas de todos os tempos. Baseado em Histórias Reais (2002), de Gustavo Moraes, com 12 prêmios, Portinholas (2003), do Projeto Animação, com 7, Macabéia (2000), de Erly Vieira Jr., Lizandro Nunes e Virgínia Jorge, com 6, e Graúna Barroca (1990), vídeo-arte de Ronaldo Barbosa, também com 6, completam o top cinco dos filmes mais premiados deste Espírito Santo.

17 agosto 2006

Depois de fundarmos (nós, sujeito oculto de quatro amigos bêbados) a Tentilhão Produções, passamos à criação de uma identidade visual para esta sanguinolenta produtora.

Sanguinolenta porque inspirada no mais cruel dos animais destas e daquelas paragens, o Tentilhão Vampiro. Ele que desde épocas darwinianas habita as Ilhas Galápagos se alimentando do sangue de pelicanos indefesos é o responsável por importantes descobertas científicas, já que graças a seus pares foi possível traçar a linha evolutiva das espécies que habitam este planeta, além de ter ajudado a alimentar teorias sociais fajutas, como o darwinismo social.

Buscando aqui e ali um designer de traços arrojados e consciência social aguçada, nos deparamos com a obra inquietante de Julio Cezar, 13 anos, habitante da Praia da Costa, fã de tudo que é japonês e irmão do Rodrigo Melo. Talento em progresso do audiovisual capixaba, em plena adolescência já possui um dos currículos fílmicos mais extensos da margem direita do valão de Vila Velha, com nada menos do que 60 animações. A violência é tema recorrente em sua obra. Doidera e Stealth Kill, dois de seus trabalhos mais recentes, estão disponíveis na grande rede. Em Stealth Kill o diretor abusa do uso das cores em cenários bem trabalhados e se esmera na construção psicológica dos personagens, enquanto em Doidera experimenta os movimentos de câmera em animações 2D e elabora um roteiro repleto de reviravoltas.

Impressionados com a força destas imagens, tomamos imediatamente todas as providências para a contratação deste jovem cineasta e confiamos a ele a responsabilidade pela criação da logomarca da Tentilhão. A negociação, mediada pelo seu irmão e empresário, durou cerca de 5 minutos e terminou com a promessa de um adiantamento de duas bolas sabor morango. Além disso, traçamos via msn o futuro cinematográfico de Julio Cezar e vislumbramos seu sucesso em festivais.

14 agosto 2006

Reta

Casa. Caminho. Objeto de estudo. Trabalho. Uma avenida e seus desdobramentos. Vida. Espaço. Algumas lembranças, modos de olhar e projeções para um futuro não muito distante.

Transversal. Doc. 13 min. dia 17. próxima quinta-feira. 19h. REC. Faesa.

Documentário que ganhou alma na ilha de edição, apesar do pouco tempo e do pouco espaço no hd para editarmos.

(#1) Ainda tem Rodrigo, Gustavo e Marcelo, Não é só uma passagem e O Beijo de Amanda, na quarta-feira.

28 julho 2006

Desde o advento da música pop, numa freqüência que cresce em progressão geométrica, os ingleses se divertem lançando discos destinados a movimentar o mais frio roqueiro do ocidente. Deve ser por isso que eu escuto Lilly Allen pulando pela casa, com um sorriso de quem se diverte ouvindo as histórias ocas de uma adolescente igual a tantas por aí. O irmão mais novo fumando no quarto e as baladas nos clubes vêm embrulhados em batidas empolgantes e samples bem montados. Citações de bossa nova, dance e reggae se encaixam em bases brincalhonas e dão forma à voz da menina.

Pulo e me sinto estranhamente próximo de britney spears, beyoncé e tantas outras. Ah, o mundo da música pop dá voltas!

24 julho 2006

tenho tentado não encontrar entrelinhas numa pequena tragédia acontecida semana passada no meu quarto. minha mãe não pode saber, mas a miniatura de jornalista que foi presente dela no dia da colação de grau teve seu impassível papel de enfeite de prateleira seriamente abalado. henry miller, truman capote, joseph mitchell, beatriz sarlo e italo calvino acharam por bem empurrar dali do alto o deslocado senhor de câmera fotográfica a tira-colo, que terminou tendo a cabeça decepada na queda.

ainda não fiz nenhum esforço para colocar a cabeça no lugar. a dele e a minha.

19 julho 2006

dedicatória

se naquela noite, você, ao invés de negar insistentemente, apenas me beijasse, estaríamos agora assistindo filme juntos. os pés debaixo da coberta. e eu teria te poupado todo o sofrimento da morte e a angústia da vida. seríamos ainda os mesmos, que bebiam cerveja toda noite depois do expediente e faziam o trajeto de volta para casa se espremendo nos muros. você ainda subiria no meio fio para me beijar e eu pronunciaria seu nome em tom de orgasmo.

se, nos dias que se seguiram, eu deixasse meu orgulho de lado, você moraria comigo, teria um filho meu e me pouparia a energia gasta em escrever algumas linhas lamentando a mediocridade do meu cotidiano sem você.

14 julho 2006

Patrícios

Leiam o que a al jazeera, o canal de tv, diz sobre os ataques de Israel ao Líbano.

Para entender o ponto de vista dos oprimidos, visitem o al jazira, em jucutuquara, o único bar, eu disse bar, árabe de vitória e conversem com o Said Ghraize.
aqui, de onde escrevo, não importa quantas vezes se chegue, as pessoas não lembrarão de você na próxima visita. e, porque não te conhecem, receberá o tratamento oferecido aos forasteiros. o olhar inquisidor, a desconfiança, o comentário malicioso.

daqui só é possível sair uma vez na vida, num dia ou noite em que se descobre o mundo e a inquietação se torna tão grande que é possível romper as amarras, dar adeus à mãe, deixar os amigos e aprender a contar até o infinito.

e por mais que se afaste, o fantasma deste lugar continua vagando e você vai pensar em voltar algumas vezes.

10 julho 2006

Havia em Jardim da Penha, na Rua Eugenílio Ramos, um restaurante numa casa de pedra chamado Azzurra. Mudaram o nome do lugar há uns poucos meses, talvez quatro. Ficou sendo Bola Brasil. É verdade que eu nunca vi movimento ali, sempre que passava na porta estava vazio. Agora me pego tentando explicar a mudança de nome. Talvez sobre o dono, um italiano, óbvio, tenha caído a saudosa lembrança de sua terra e o desejo silencioso, porém implacável, de pisar novamente o chão que ele só aprendeu a amar quando estava distante, denominador comum de todos os imigrantes. Mudando o dono, muda-se o nome. Também pode, o dono, seja ele brasileiro, italiano ou chinês, ter deixado de lado as belas massas em prol de uma cozinha genuinamente brasileira.

Admitiria estas hipóteses se não estivéssemos em meados de 2006. É certo que mudaram o nome para atrair, em tempos de copa do mundo, a fatia dos clientes patriotas, que alguma pesquisa de mercado esperta soube identificar. Além disso, a seleção italiana não ganhava uma copa há 24 anos! Uma péssima estratégia de marketing seria deixar com este nome um restaurante que, pretendia-se, de sucesso.

Mas, vieram os jogos e não os clientes. O título foi para a Azzurra. E bola e Brasil se mostraram uma péssima combinação.

06 julho 2006

Não pense que eu sou ruim. Quando me disseram que conhecemos as pessoas certas nas horas erradas você não foi o primeiro nome que me ocorreu. Sempre acreditei que você era a garota errada numa oportunidade horrorosa. Mas subtraindo meu orgulho, acho melhor confessar que eu nunca vou esquecer seu nariz. Se me interessei por você naquela noite do dezembro mais quente que eu já vivi, ele foi o grande culpado. Depois vieram seu sorriso e o sobrenome árabe, mas bastava o nariz grande!

Insisto. Aqueles não eram os melhores dias da minha vida, o extremo oposto, porém. Tive que escolher entre você e minhas amídalas, as quais, com a obstinação que me faltava para dizer que te amava, me sufocavam dia e noite. Sobrava um resto de voz insuficiente para sugerir a você que esperasse eu me curar.

Agora, lamento que este romance laringo-nasal tenha terminado tão sem mágoas ou justificativas. Sem gritos histéricos nem olhos e narizes escorrendo lembranças e tristeza.

04 julho 2006

1º Contravenção – Mostra de Vídeos na Contramão e de Invenção

(#1) release que eu e Kênia Alice fizemos em menos de 2h, pelo msn. O nome da mostra eu inventei!

Nesta quarta-feira, os estudantes de Comunicação Social da Ufes realizam a Contravenção – Mostra de Vídeos na Contramão e de Invenção, a primeira mostra de vídeos produzidos por alunos de jornalismo e publicidade da universidade federal. Os vídeos serão exibidos a partir das 20h, no pátio do Cemuni 5 no Centro de Artes.

Com um ideal festivo, sem premiação, mas com música, cerveja gelada e vinho de garrafão a noite inteira, a 1º Contravenção tem o objetivo de tirar dos arquivos empoeirados os vídeos fresquinhos produzidos nas disciplinas do curso de Comunicação e em oficinas de animação e vídeo oferecidas pelo Centro Acadêmico desde 2003 além das fitas independentes feitas pelos estudantes.

Sem um canal universitário para a veiculação deste material, os estudantes pretendem formar um circuito alternativo de exibição, autônomo e temporário, uma rede sem hierarquia e sem censura, mas com um alvo bem definido: divulgar o que se inventa na universidade (ou apesar dela). Até agora são 15 vídeos inscritos, mas todos estão convidado, podem levar seu dvd ou vhs que serão exibidos na hora.

A 1º Contravenção é organizada pelo Centro Acadêmico de Comunicação Social da Ufes e tem o apoio do Departamento de Comunicação Social.

03 julho 2006

o hexa

depois da copa do mundo pífia e do jogo desastroso de sábado, ontem veio ferreira gullar, em sua crônica na ilustrada da folha, dizer que futebol não é arte, mas jogo. nosso poeta endossa o pragmatismo de parreira, que esteve certo ao querer ganhar apesar do modo de jogar. e acabo de ouvir no jornal hoje o quebrador de recordes cafu declarar que nem sempre o melhor vence.

chega a ser divertido o modo como a globo, em seu noticiário esportivo, desde domingo, crucifica os jogadores mais antigos, os homens de confiança do técnico. cafu e roberto carlos, os acusados pelo gol da frança, sairão no lucro se sobreviverem após o massacre. aliás, sobrevida os dois tiveram na seleção, roberto carlos falha e não cruza uma bola na área adversária desde 1998.

até kaká e adriano estão no rol dos piores da copa. liderada, claro por parreira e sua reação tardia ao futebol medíocre da seleção.

(#1) sábado, enquanto os jogadores brasileiros murmuravam o hino nacional, a escelsa fazia um grande esforço para poupar os torcedores da região norte de Vitória de mais uma traumática partida contra a frança. em jardim da penha faltou luz durante quase todo o primeiro tempo. infelizmente, conseguimos a casa de um colega com luz, dois prédios à frente, na mesma rua, e pudemos fazer parte da corrente pra frente.

(#2) em 1998, assisti a quase todos os jogos com a minha mãe. quase. justamente na final eu fui para um sítio com amigos. lembro de, ao voltar pra casa à noite, passar por ruas desertas. um silêncio angustiante na cidade inteira. minha mãe me culpa até hoje pela derrota do brasil.

22 junho 2006

quer almoçar comigo amanhã? preciso contar o que eu sinto quando saio sem você e no que estou pensando quando olho sem piedade para todas as mulheres que cruzam o meu caminho. entenda, de você eu não espero mais do que estar ao meu lado até o fim. acordarmos todos os dias juntos. você ignorar insistentemente as minhas tentativas de arrancar da sua boca qualquer frase que revele a posição que ocupo numa hipotética escala de grandes amores da sua vida. mas sei que você é incapaz de dedicar seu corpo só a mim.

invejo seu cinismo. o modo prolixo como nega sua dependência e reafirma com a ladainha das seis horas seu credo inabalável no amor livre. nesta altura da vida o que me faltava eram ideais libertários! saiba, eu prefiro a caretice das declarações de amor, as mãos dadas, o presente no dia dos namorados.

e saio me desculpando pela ingenuidade descrita sem vergonha nesta folha branca, enquanto ouço aquela fita k7 que você gravou pra mim quando ainda não estavam domesticados os gravadores de cd e acabáramos de fazer a primeira comunhão.

12 junho 2006

agora, dono da sua confissão, serei o mais cruel dos carrascos. ao mesmo tempo frio e carente, desejarei ouvi-la todas as noites e saberei usa-la contra você no momento certo. porém, serei estéril sem sua voz respirando ofegante nos meus ouvidos. desistirei da minha importância tão logo você mude de idéia e recuse seu (não-)lugar de leitora confessa do que eu escrevo.

(#1) compre na mercearia da esquina foi elevado à condição de invejada produção artística por um proeminente diretor espírito-santense.

(#2) quero viver em um lugar onde as árvores sejam maiores que as casas.

30 maio 2006

o artista. enquanto devora seu yakisoba ele regurgita frases ensaiadas, ouvidas antes pelos seus amigos em conversas de mesa de bar. se não tem amigos, o que é possível, ensaiou em voz alta debruçado na ilha de edição. a falação se encadeia tão bem, cada palavra em seu devido lugar, nem parece que discursa quem se irritou cinco minutos antes e foi servir seu prato deixando no ar a dúvida do seu retorno. enquanto fala insiste em não olhar quem pergunta, mira o movimento que passa pela porta de vidro do restaurante japonês.

do pedestal erguido para a campanha de sua auto-promoção, ele atribui muito valor ao que fala. sugere uma, duas, três pautas para serem fiéis à complexidade de suas colocações. completa a série revelando sua cruzada solitária contra os costumes limpos da classe dominante. porque artista de fato critica, radicaliza, incomoda e, sempre, é perseguido sem direito a defesa.

e o chilique, claro. a defesa natural quando estão se aproximando do cerne da questão. o desfecho óbvio, como num roteiro construído sem surpresas.

16 maio 2006

Compre no CCBB

Por mais que os diretores insistam em negar sua pretensão videográfica, Compre na Mercearia da Esquina teima em ser selecionado para os festivais nacionais. Hoje saiu a lista da Mostra Competitiva do 11º Festival Brasileiro de Cinema Universitário, que acontece no início de junho (03 a 11) no Centro Cultural do Banco do Brasil e no Centro Cultural dos Correios.

Dos 226 inscritos, 54 entraram na competição! Em breve, mais detalhes.

08 maio 2006

O Carapuceiro é o blog do xico sá, o das melhores colunas de futebol, às sextas na folha de são paulo. também o da última página da Bravo! (ainda é? eu parei de ler porque a revista, puxa vida, ficou uma merda muito cara!).

29 abril 2006

pixcodelics

argumento de desenho animado da televisão por assinatura no sexto ano do século XXI: vilão sedento por dominar a humanidade distribui para adolescentes mp3 player hipnótico. Grupo de amigos deve evitar o domínio das mentes pelo mal, uma de suas armas é o joystick cinético.

Em comparação com os desenhos do século passado só uma coisa não muda, no final o bem ainda vence.

Matéria do Uol.
Site do desenho.

25 abril 2006

Assistiram à rodada do Campeonato Brasileiro no final de semana? Eu vi o segundo tempo de Ponte Preta e Vasco e foi o primeiro contato com o novo layout das partidas de futebol da Globo.

Prefiro o antigo, que ocupava menos espaço na tela, era claro e bastante visível. No novo modelo, o nome dos times e o tempo cronometrado ocupam um espaço enorme da parte superior esquerda da tela. Além disso, um gol é motivo para que apareça na parte inferior esquerda o nome do jogador que marcou e ainda escrevam, por cima do nome, a palavra GOOOL, com alguns "os" a mais. É redundante! Precisa escrever? Não bastam a imagem e a narração?

Depois de uma boa fase de inovações na transmissão de partidas de futebol trazendo para a televisão aberta cacoetes de videogame, como o círculo que determina o posicionamento correto da barreira e a seta que mede a distância da bola parada até a meta, a Globo dá um passo em falso justamente no quesito no qual teria tudo para ser bem sucedida.

20 abril 2006

gente, ele tem um blog

tudo bem que ele fique com garotas por aí. ou que ele seja editor e eu nem jornalista ainda. acho que perdoaria até se ele fizesse um vídeo com outro qualquer. mas ele fez um blog e nem me falou nada! me deixou saber pela boca do orkut!

Pronto-Parágrafo

agora ele vai entender o que é ter os comments zoados!
Andei a tarde toda pelas ruas asfaltadas do meu bairro juntando galhos secos de árvores escassas. Arranquei duas ou três folhas do mês de dezembro da minha agenda. Pedi emprestado ao porteiro do prédio seu isqueiro bic amarelo. Abri a porta do meu guarda-roupa e escolhi a blusa de malha branca com estampa do Belle and Sebastian. Aquela que você usava para dormir quando já era tarde demais para ir embora. Depois de jogar da varanda as cinzas do que me lembrava você, decidi que era hora de apagar minha memória.

19 abril 2006

sangue

Mustangue Cor de Sangue faz revival no bar mais underground de Vitória! Música brasileira, preferencialmente!
foi tão logo você me deixou. saí procurando o que abraçar. pensei há quanto tempo eu só sentia o gosto da sua pele e só sabia da textura engraçada do seu cabelo. meus braços cruzados tinham a forma do seu corpo, nada mais se encaixava. pensei em todos os xingamentos da língua e queria que estivesse ao meu lado para não precisar recitá-los em voz alta no meio da rua. eu nunca falei palavrões pra você.

também não conjuguei o verbo amar. mas isso não demorou você percebeu. tanto que foi embora. sei que espera que eu esteja no mesmo lugar, com o mesmo vento sul levantando meu cabelo, quando você chegar. e eu vou estar. a vida foi suspensa quando seu ônibus partiu. confesso que procurei um lenço para balançar, um chápeu de feltro cinza para acenar, mas você não olhou pela janela. gosto de imaginar que o ônibus quebrou na estrada e você ainda não chegou ao seu destino. é por isso que demora tanto a voltar.

14 abril 2006

hoje mais um prédio da minha rua ganhou cerca elétrica.

28 março 2006

não saberia ter prazer com outro. ela me disse, ainda ofegante, enquanto me apertava forte. na hora eu duvidei, preocupado. deitei ao seu lado e disse que não podia ser verdade e se fosse verdade não era boa coisa. eu não podia retribuir tamanha fidelidade, na verdade eu queria comer todas as mulheres que eu conhecia, a maioria das amigas dela até. mas isso eu não poderia dizer e falei que eu não iria ser o único homem na vida dela ainda que quisesse. e a partir daí ela se dedicou de modo inacreditável para que a minha mais sincera sugestão se tornasse certeza.

e nem as amigas dela. nem a terapia que venho sofrendo há meses. nem estes comprimidos azuis que me custam dinheiro e vergonha. nada me desperta do eterno sono no qual ela me enclausurou.

14 março 2006

hoje eu ouvi maria bethânia cantando teresinha, do chico. me lembrei de quando você cantou esta mesma música para mim, no ouvido, depois de duas cervejas sentados naquele bar. talvez este tenha sido o grande momento da minha vida no quesito declarações de amor, pelo menos eu pensei assim. naquela noite chuvosa entendi que eu era o terceiro e tinha chegado do nada, havia me deitado na sua cama e me instalado como um posseiro.

eu continuo sendo o terceiro, mas não o último. você encontrou o quarto, e nem o compositor havia pensando nesta hipótese. espero que a história seja um círculo e ele, o primeiro, levando para você um bicho de pelúcia. logo virá o segundo e te chamará de perdida. só aí, no final do ciclo, você se lembrará de mim e eu não te pedirei nada.

08 março 2006

Deixa tocar, ela dizia enquanto o telefone soava estridente. Sem culpa ignorava a campainha incansável e pedia que a abraçasse. E eu rangia os dentes ouvindo o toque repetitivo ressoar da sala até o oco da minha cabeça.

Agora, incansável, ligo todas as noites. E imagino o eco do telefone chamando pela sala vazia da casa dela e indo até o quarto onde ela sussurra as palavras que definem meu futuro no ouvido de outro.

Ainda me dói a cabeça a repetição exaustiva do toque do aparelho. (Onde eu deixei minha dentadura?)

05 março 2006

a vida nublada. horizonte totalmente encoberto e trilha feita de barro da chuva que passou. sem enxergar não posso dar um passo à frente sequer. ainda não comecei a afundar. e é pior ter que se manter de pé e caminhando, quando seria fácil se esconder sob a terra. e lá não pensar na segurança do próximo passo, no calor de um colo ofegante, no sabor da fumaça no prato. queria poder fazer o caminho de volta, repetir todo o percurso atravessado e retornar à primeira hora do que agora me estremece. e isto seria menos amedrontador do que seguir em frente.

alguns, como peregrinos cientes do seu destino, seguem em frente apesar das dúvidas. e mesmo que peguem atalhos ainda assim continuam, enquanto eu aqui parado acredito que a única saída é pensar em como as coisas foram boas por algum tempo.

04 fevereiro 2006

Conhecer as pessoas é a melhor forma de gostar do lugar

Tive que voltar a Minas para me desintoxicar de mega redes de supermercado e sentir novamente o que são as mercearias da esquina. Vou contar um pouco delas.

Lá em Tiradentes a Mostra de Cinema se divide entre filmes na Tenda, armada na margem esquerda do rio que molha a cidade, filmes na Praça, onde se ouve rock ou blues vindos dos bares ao redor, oficinas espalhadas por aí, e debates no Centro Cultural, edifício charmoso com sala de imprensa, auditório, café, escada larga com sombras de arvóres e uma mercearia bem em frente.

Um sobrado antigo, duas portas altas de madeira, uma mesinha de bar, balcão, freezer, estufa, prateleiras com secos e molhados, enlatados e engarrafados, muitas pelas paredes, uma mesa de madeira com gavetas e atrás o dono, seu Bizuca.

Comprar ali é ser presenteado com uma prosa rica. Peça uma cerveja no ensolarado sábado a tarde ou compre uma garrafa de vinho tinto seco e um queijo minas na noite de domingo e seu Bizuca irá contar um pouco da sua história e da vida da cidade, ou de como os vinhos secos são melhores do que os suaves. Ele ainda fala da sua pousada, se orgulha da tranqüilidade de Tiradentes e recomenda as cachoeiras dos distritos próximo. O queijo é feito num sítio perto, ele está ali há uns 30 anos e os dias de carnaval dão muita confusão.

Tudo bem, seu Bizuca. Não virei no carnaval. Melhor aparecer uns dias antes, durante a Mostra!

25 janeiro 2006

Desde sexta-feira estou em Tiradentes. A Mostra de Cinema vai até sábado, mas deixo a cidade amanhã. Estou de jornalista do Século Diário, mas tenho gasto meu tempo passeando, já que a Mostra não me deu hospedagem nem alimentação. Cachoeiras, chafariz, rua de pedras irregulares, pontes, calor de dia, de noite frio e muitos curtas, vídeos e longas.

leiam um pouco mais aqui!

14 janeiro 2006

"Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair"

chico buarque me resume.

no alto a lua está cheia. as montanhas, cuidadosamente construídas, impedem meu destino. claustro. curto horizonte. corro para elas. corro contra o muro.

estouro contra ele a teimosia dos meus nervos. dedico à rígida escuridão a intensidade estéril dos meus movimentos. e caio algumas vezes.

escondo as feridas dos meus olhos. e sigo batendo.

queria agora a amplitude do mar e poder olhar, olhar mais do que o escuro vertical.

11 janeiro 2006

crítica

Reações Psicóticas é a coletânea de artigos do maluco Lester Bangs publicada pela Conrad. Esta aqui é a resenha escrita para o Século Diário.

10 janeiro 2006

telhados

e se eu caísse nesse fosso escuro, daqui até o chão recordaria seu cheiro e lá embaixo minhas costelas quebradas sentiriam seu toque. eu iria do céu ao inferno em dois segundos de queda livre e desesperada. então me amarro em suas pernas e deito olhando as antenas de tv. falo do silêncio, penso em desaparecer. ouço piazolla enquanto deixo o chocolate derreter nos dedos e depois nos seus lábios. deitamos a um palmo do chão. a um passo da queda. dentro do céu.

23 dezembro 2005

uma canção de amor e morte

e junto aos anjos de dezembro vem a morte. sorrateira e rápida, sua forma mais crua. anjos que vêm sem rosto, espalhando a brisa fria sob o céu cinza do fim. e o fim deveria ser digno de memória, nunca um cair inerte sob sedativos no quarto esquisito de um hospital.

acompanho aqueles que choram e negam qualquer possibilidade daqui em diante.

nada a fazer, apenas soluçar sobre o leito.

02 novembro 2005

continua

Na estação reconheço os mesmos rostos que você me havia descrito. Traços de gente simples e quieta, gestos e abraços carinhosos. Na multidão, que agora estica as pernas em piso imóvel, desvio das recepções calorosas.

Caminho rumo ao Centro. Leio nas placas os nomes das ruas que você me cansou de dizer e percorro o trajeto imaginário que suas pernas desenharam um dia. Sinto o cheiro dos queijos pendurados à mostra nas mercearias da parte velha da cidade. Vejo que, mal se vai o dia, as luzes vermelhas do amor brilham nos luminosos dos hotéis baratos.

Alcanço a praça e ela já não é a mesma. Você mentiu quando falou das flores no jardim, do realejo e do lambe-lambe. Interrompo o andar apressado de um senhor e o faço tirar os olhos do jornal. Pergunto sobre o coreto e ele diz que foi desmanchado ainda no século passado, quando a seresta foi sepultada no túmulo do último flautista da cidade.

Ele continua seu lamento e o acompanho com os olhos até o momento em que desce da calçada para atravessar a avenida e em passos firmes se lança em meio aos carros. Ouço seu último gemido quando é lançado para o alto seguidas vezes por uma comitiva de limusines negras e agradeço aos curiosos que se aglomeram ao redor do corpo deixando livre o horizonte de ruas margeadas por edifícios tortos.

Desfruto este instante de solidão cabisbaixo, certo de que não tropeçarei em alguém, e esqueço que estou em território inimigo.